ALGUMA POESIA

(BLOG DE DADO PEDREIRA)

http://ribeiropedreira.blogspot.com/

Soneto para ninar Joana

Adriano Eysen

No feitiço da tua carne repousa a lua
e a noite vem habitar o silêncio da rua
por onde pasta uma réstia de saudade
que vem morrer em teus seios – porto de liberdade.

Tua pele rasura estas ávidas retinas
que tatuam neste dorso sonhos e rotinas
e tuas mãos rabiscam, quase selvagens,
no úmido peito – deuses – libertinagens.

No quarto, uma luz, e o vento valsa segredos
povoando cândida nudez e teu silêncio
que despertam em mim fios de medos.

Lá fora a cidade é um deserto
onde um cão e seu abandono trafegam
sob olhos de ressaca - vastos e incertos.

ESSENCIAL

DEPOIS DO FIM é o primeiro disco dos cariocas do Bacamarte, saudado ao redor do mundo como um dos grandes discos de rock progressivo já feitos. Dos ensaios na Vila Isabel de 1974, vêm o guitarrista e compositor Mario Neto, então com 14 anos, e o tecladista Sérgio Villarim, que tinham a ideia comum a quase todos naquela época: misturar as influências de MPB, música clássica e Beatles. Gravado em 1979, já com a participação de Marcus Moura (flautas e acordeão), Mr. Paul (percussão), Delto Simas (baixo), Marcos Veríssimo (bateria) e uma inspirada Jane Duboc, o disco foi lançado em 1983, após entrar na programação da Rádio Fluminense FM. As composições – todas de Neto – rivalizam com os melhores momentos de bandas como Genesis ou Renaissance, colocando no bolso os similares nacionais mais conhecidos do público. Ouvir canções como “Smog Alado”, “Caño”, “UFO” e, sobretudo, “Último Entardecer”, com qualidade sonora superior, é um prazer que você deve se dar.

1.UFO
2.Smog Alado
3.Miragem
4.Pássaro de Luz
5.Cano
6.O Último Entardecer
7.Controversia
8.Depois do Fim
9.Mirante das Estrelas

SALA DE BRINQUEDO*
Dado Pedreira
 

Feito mulher
a boneca desabrochou.
Despiu-se toda
e sobre o urso de pelúcia
serviu-se lúcida.

 Sem qualquer pejo,
ondulava suas formas
em movimentos
leves e desapressados
frente ao espelho.

E se mirava.
Seu reflexo sorria
da harmonia
que regava aquele instante
especial.

 Feliz, o urso
contemplava todo gesto
como quem hiberna.

 Era uma tarde de primavera.

  (*) Para Isa F.

TRIBUTO
 Radi Oliveira dos Santos

Bate o vento
derrubando a folhagem
do antigo pinheiro
morto no coração do quintal.
Chora um passarinho amarelo,
dizendo assim:
Bem- te- vi, bem- te- vi,
Bem- te- vi no ouvido de
um galho seco.
Arrastando-se pelos telhados
Um miúdo raio de sol
- Vem ver!
As rugas cinzas,
os frutos pecos, as pipas
penduradas no esqueleto.
Um pinheiro estóico
ao tempo.
 
Era abril, quatro de 80, Santo Amaro da Purificação. Filha de Aureliano com Helena. Dia 1º de janeiro nasceu em Diadema, filha de Brait para escrever (Palavreiros), para cantar (Formigueiro). Atualmente só ama (Adeodato e Celena)

INCIDENTE EM BALTIMORE
 Countee Cullen


Uma vez andando em Baltimore
Com o coração cheio, o coração cheio de alegria,
Eu vi um menino baltimoreano
Olhando fixo para mim.
 
Eu era pequeno, tinha oito anos
E ele era pequeno como eu;
Por isso eu sorri, mas ele pôs a língua
E disse apenas: "Negro".
 
Eu vi toda a cidade de Baltimore,
Desde maio até dezembro;
Mas de todas as coisas que ali aconteceram
É só do que eu me lembro.

Countee Cullen (1903-1946). O poeta negro norte-americano. Seus poemas diziam da dor que sofreu em vida. Filho de uma sociedade que pendurava os negros nas árvores: os "estranhos frutos" cantados melancolicamente por Billie Holiday, publicou entre outros livros Color (1925), Copper sun (1927) e The ballad of the brown girl (1927). Tradução de Ribeiro Couto.

Travelling

Para Herculano Neto

Santo Amaro vive em mim
desde menino em Riachão
A Cachoeira de Pedras
e a Festa da Purificação...

São lembranças que guardo
num camafeu de ouro
estampado no meu peito
feito um grande tesouro

Serjão, Dado, Edinei
Edvaldo Assis, Bóris
Roberto Mendes...
Amigos de uma confraria
a que mantenho no coração

O Subaé sem providência
e o Samba de São Braz
me leva ao delírio
Vou me mudar
Para Santo Amaro
Lá é que vai ser meu exílio.

Miguel Carneiro, 18/09/2009

CARURU DOS SETE POETAS - 2009

No dia 26 de setembro de 2009 (sábado), a partir das 20h, no Largo d’Ajuda em Cachoeira - Recôncavo Baiano acontecerá a 6ª edição do Caruru dos Sete Poetas – Recital com gostinho de dendê.

Dentre os sete poetas convidados: Antônio Carlos Barreto, Crispim Quirino, Juraci Tavares, Nelson Santana, Sérgio Bahialista, Urânia Rodrigues Munzanzu e Vânia Melo. Haverá a apresentação do espetáculo cênico-poético do CRIA Poesia e do grupo musical afro-barroco Gêge Nagô. Será publicado um Poemário (antologia dos 7 poetas) durante o evento.

O Caruru dos Sete Poetas – Recital com gostinho de dendê é um evento que une à literatura um momento da tradição cultural e religiosa baiana, caruru dos sete meninos, de reverência aos Ibejis, da tradição afro-brasileira, e aos santos católicos São Cosme e Damião. Numa analogia aos sete meninos das manifestações religiosas, este projeto promove o encontro de sete poetas para recitar seus versos e celebrar nossa cultura e arte literária. É a miscelânea da poesia, comida baiana, lançamento de livros e performances artísticas com o propósito de integração e fruição de uma tradição cultural baiana.    

Marcado pela diversidade de linguagens, tendências, correntes literárias e de público, o que se busca no processo de realização do evento é dar movimento e magia à literatura. É agregar pessoas para ouvir poesia na voz do/a poeta. É evidenciar a poesia do corpo e da dança, do teatro, do palhaço, da música. É unir sete escritores, com alma de criança e poeta, para celebrar a literatura e nossas tradições culturais.

Realização: Casa de Barro : : Cultura Arte Educação

Patrocínio: Fundo de Cultura -  Secretaria de Cultura / Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia

Produção: Tabuleiro Produções

O acesso é gratuito. 

Obrigado, senhor, porque me deu de comer hoje, apesar de ter esquecido as centenas de milhares de crianças que morrem de fome todos os anos, por mais que elas e seus pais também tenham orado! Obrigado, senhor, por atender minhas preces quando peço para meu time ganhar e também por não atender as preces de milhares de pessoas que imploram pela paz diariamente! Obrigado, senhor, porque você salva a vida de uma pessoa no meio de um desastre com milhares de vítimas fatais!

UM QUADRO*
João de Moraes Filho

ou quem sabe, algum retrato que vazou do cesto...
Soares Feitosa

um vermelho vestido
de outros portos tangia
os traços iluminados do rosto
em direção ao olhar da menina

sonhada, levemente. Um laço
dividindo atenções com os cabelos
ensaiava algum desejo: sorria

seus lábios tímidos dirigidos
àquela direção: onde estava um pincel;
um vermelho vestido no retrato, laço
de poeira desatado e suas versões.

(*do livro EM NOME DOS RAIOS)

Trapiche, Julho de 1993

A "intera", o gole na boca da garrafa, passar de mão em mão, baseados em sinceridade, rir, gargalhar, silenciar, assovios e palmas, cantos, gritos, solos, esforço, aqueles que dançam, que chutam o espaço, que empurram, que são empurrados, os que apenas assistem, poucas gurias, quase nenhuma, qualquer lugar, nenhum lugar, desfrute, caeira, águas, chamas, pousada, cemitério, camisa preta, desbotada, roqueiros de boutique, inscrições em guache na Hering branca, debates eufóricos, barreira da praça, punks do Trapiche, Iron, Black, Led, Doors, Legião, Guns, Nirvana, Sepultura, outra banda, uma nova banda, qualquer banda, Contracultura, Sindicato, Som Marginal, Batalhão, Feto, voltar pra casa antes do fim, antes da jam, travado, exausto, com alguns amigos, sem nenhum goró.

CORAÇÃO VAGABUNDO

O ENTERRO DO CAMARADA
Ediney Santana

Nada de flores ou bandeiras.
Expulsam os padres
pastores, espíritas ou qualquer
infeliz versado na
arte ilusória das religiões.
Camisa manga-longa preta,
Calça jeans, tênis desbotados,
incensos da índia, vinhos e cerveja.
Fundo musical: os das nossas aventuras.
Se possível, cremar,
se não possível, nada a lamentarmos.
Memória póstuma? Talvez uma biografia
escrita a diversas mãos em um boteco qualquer.
Nada de olhares piedosos,
nada de discursos políticos,
nada de tristeza sem sentido.
Muitos anos depois é o fim,
no entanto apenas o começo.

FICO NU PARA DEUS
Elizeu Moreira Paranaguá

Eu sempre fico
nu para Deus,
mas ele nunca
ficou nu para
o sentido terrível
do meu ser.

PROJETO MÚSICA NO SEBO

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