
SALA DE BRINQUEDO*
Dado Pedreira
Feito mulher
a boneca desabrochou.
Despiu-se toda
e sobre o urso de pelúcia
serviu-se lúcida.
Sem qualquer pejo,
ondulava suas formas
em movimentos
leves e desapressados
frente ao espelho.
E se mirava.
Seu reflexo sorria
da harmonia
que regava aquele instante
especial.
Feliz, o urso
contemplava todo gesto
como quem hiberna.
Era uma tarde de primavera.
(*) Para Isa F.
TRIBUTO
Radi Oliveira dos Santos
Bate o vento
derrubando a folhagem
do antigo pinheiro
morto no coração do quintal.
Chora um passarinho amarelo,
dizendo assim:
Bem- te- vi, bem- te- vi,
Bem- te- vi no ouvido de
um galho seco.
Arrastando-se pelos telhados
Um miúdo raio de sol
- Vem ver!
As rugas cinzas,
os frutos pecos, as pipas
penduradas no esqueleto.
Um pinheiro estóico
ao tempo.
Era abril, quatro de 80, Santo Amaro da Purificação. Filha de Aureliano com Helena. Dia 1º de janeiro nasceu em Diadema, filha de Brait para escrever (Palavreiros), para cantar (Formigueiro). Atualmente só ama (Adeodato e Celena)

INCIDENTE EM BALTIMORE
Countee Cullen
Uma vez andando em Baltimore
Com o coração cheio, o coração cheio de alegria,
Eu vi um menino baltimoreano
Olhando fixo para mim.
Eu era pequeno, tinha oito anos
E ele era pequeno como eu;
Por isso eu sorri, mas ele pôs a língua
E disse apenas: "Negro".
Eu vi toda a cidade de Baltimore,
Desde maio até dezembro;
Mas de todas as coisas que ali aconteceram
É só do que eu me lembro.
Countee Cullen (1903-1946). O poeta negro norte-americano. Seus poemas diziam da dor que sofreu em vida. Filho de uma sociedade que pendurava os negros nas árvores: os "estranhos frutos" cantados melancolicamente por Billie Holiday, publicou entre outros livros Color (1925), Copper sun (1927) e The ballad of the brown girl (1927). Tradução de Ribeiro Couto.
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