TERCER MUNDO
Julio Cortázar
Aí, não longe, as enguias palpitam seu imenso pulso,
seu giro planetário, tudo espera o ingresso
numa dança que nenhuma Isadora dançou deste lado do mundo,
terceiro mundo global do homem sem fronteiras,
chapinhador de história, véspera de si mesmo.
CORTAZAR, Julio. Prosa do Observatório, 1972

MAIO 68
Jorge Portugal
A última vez em que vi esperança
Foi na mesma esquina em que eu me perdi
Havia uma lacrimogênica ilusão
Palavras de ordem sob a calça Lee.
O estado de graça de tantas contradições
Nas barbas de Marx ou Khrisnamurti
No livro sagrado de todas as pichações,
A voz de John Lennon na canção de Vladimir.
Havia vestígios de hippies e Cohn Bendis
Os punhos cerrados violando o ar
Tropicaetanos, excelsos, travassos, gizs
Em cada cabeça um mundo a mudar.
Se somos a soma de tantas subtrações
Outras gerações vão nos multiplicar
O saldo é a semente plantada nos corações, ações
De outras cabeças que possam sonhar.
Maio meia oito
Meia vida meio torta
Meio natureza morta
Pode ser...
Meia liberdade (Nosso sonho) que se solta
Mas não volta na meia volta volver.
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