This is the end...
Todo risco
(Damário da Cruz)
A possibilidade de arriscar
É que nos faz homens
Vôo perfeito
no espaço que criamos
Ninguém decide
sobre os passos que evitamos
Certeza
de que não somos pássaros
e que voamos
Tristeza
de que não vamos
por medo dos caminhos

JUDIARIA
(Lupicínio Rodrigues)
Agora você vai ouvir aquilo que merece
As coisas ficam muito boas quando a gente esquece
Mas acontece que eu não esqueci a sua covardia
A sua ingratidão
A judiaria que você um dia
Fez pro coitadinho do meu coração
Essas palavras que eu estou lhe falando
Têm uma verdade pura, nua e crua
Eu estou lhe mostrando a porta da rua
Pra que você saia sem eu lhe bater
Já chega o tempo que eu fiquei sozinho
Que eu fiquei sofrendo, que eu fiquei chorando
Agora quando eu estou melhorando
Você me aparece pra me aborrecer
A história decalcada
(Henrique Wagner)
Era branco de medo e tímido sorria,
os olhos desbotavam atrás da vidraça.
Mal começava a noite e era bem-vindo o dia,
como quem espera a vida e por sobre ela passa.
O tempo medicava enquanto o sol gemia,
e as coisas só viviam onde havia praça.
Portanto, minha casa era grande e vazia,
e apenas uma voz crescia, firme: “Faça
isto! Não faça aquilo!”. E eu não fazia nada.
Viver era somente espirrar, quando inverno,
e todos me pediam, alto, que sorrisse.
Coloria meus olhos a história contada
nos livros de aventura. E eu enchia o caderno
com os diversos tamanhos – alados – de Alice.
(POEMA INÉDITO)

Luís Vaz de Camões
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Entre ave e réptil
Carlos Machado
interessa-me
entre ave e réptil
a condição
ambígua
confesso meu
fascínio por
essa corda estendida
entre uma e outra
palavra
e sua falsa noção
de equilíbrio
trago na raiz
do gesto o alvoroço
do circo
nervo reteso
lanço-me no ar
risco a
superfície do inútil — e vôo!
por vezes
uma palavra mais ágil
me subtrai
do precipício
mas quase sempre
me esborracho
no chão
em meu vôo solo
sem tambor nem
auxílio
reconfirmado
sísifo
— amador de seu ofício —
alço-me outra vez
ao risco dos trapézios
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ENIGMA
(Adelino Moreira)
Quis conter-me mas não pude
Revoltado com a atitude dessa gente original
Que pensa ser incomum e julga todos por um
E prega sem ter moral
Insensatos pregadores
Esses cruéis detratores
Agem quase sempre assim
São imbecis personagens
Molares das engrenagens
Que sentem inveja de mim
Dizem que eu encarno o mal
Que eu não passo de um radical
E que sempre falo demais
Dizem esses entendidos
Que eu devo tomar juízo
Ser como eles banais
Não os temo e nem me assusto
Mesmo sabendo que o justo
Paga pelo pecador
Pois quem não deve não medra
Atire a primeira pedra
E eu mostro o meu valor

FALE MAL DE MIM
(Gabriel Thomas)
Você fica irritado comigo
Só porque voce me acha mais bonito que voce
Você já fica todo nervoso
Quando te dizem que eu sou mais talentoso que você
Sua vida anda mesmo sem graça,
Pois a única saída que você acha é me difamar
Isso até que veio bem a calhar
Eu estava precisando de alguém para me divulgar
Fale mal de mim
Fale o que quiser de mim
Mas por favor, não deixe que em nenhum momento
Eu deixe de estar no seu pensamento
Fale mal de mim
Fale o que quiser de mim
Porque todo mundo que te conhece
Sabe que é isso o que você merece
Você sabe que eu vencerei
Que eu triunfarei
Isso incomoda você
Isso irrita você
Você sabe que eu vencerei
Que eu triunfarei
Isso incomoda você
Isso vai matar você
Carolina
Bernardo Linhares
São rosas na bruma
buquê de gaivotas
por cima das águas
bordadas de espumas.
Com linha da costa
de seda tão pura
costuro tua moda
na vela do barco.
Ternura mais funda
os fios da corrente
revelam teus laços...
Cortando o silêncio,
um amor imenso
navega no vento.


POETA
Angélica Freitas
1.
eu não sou poeta
poetas se afogam
em lagos, dylan
disse
se os lagos
cuspissem
livros
seria o bastante
para deixar
disso
2.
se os patos
nadassem
sobre o
cadáver
nada
3.
com pedras
no bolso
do casaco
pesa
4.
com patos
com pedras
com pêsames
com pena
poeta
Inúmera
Daniela Galdino
Eu tenho a síndrome de Tim Maia.
Eu tenho as varizes de Clara Nunes.
Eu tenho os vícios de Piaf.
Eu tenho a orelha de Van Gogh.
Eu tenho a perna que falta ao Saci.
Eu tenho o olfato de Freud.
Eu tenho o cansaço de Amélia.
Eu tenho o peso de Maria.
Eu tenho as dermatoses de Macabéa.
Eu tenho a cusparada de Sofará.
Eu sou a linha tênue que une os xifópagos.
Eu sou uma interrogação vagando com pressa.
Eu sou um insulto atirado à queima roupa.
Eu tenho atalhos ainda não percorridos.
Eu tenho palavras desgastadas e nulas.
Eu tenho uma voz penífera e cortante.
Eu confesso: sou inúmera, sou intrusa, sou inúbil.
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